Vidro do para-brisa estilhaçado, infectado sobre o capo, com metade do corpo para dentro do carro, sangue respingando nas janelas, tripas escorrendo pelo assento. Assim havia acabado a vida daquele pobre coitado, que tentara em vão fugir com seu veiculo, sem honra ou glória, sem capacidade de se defender. Nada emocionante como retratada em filmes a morte era, sem musica de fundo ou pessoas chorando a sua perda. Apenas o som do vento, afinal estava em alta velocidade quando fora atacado.
William viu um carro vindo pela pista, sem controle, o motorista parecia ter sido devorado e agora satisfazia seu agressor, preso na parte da frente sobre a lataria. Estava em rota de colisão com ele! destravou a porta rapidamente e impulsivamente se jogou para fora. Mas notou estar preso com o tranco que o segurou, esquecera de destravar o cinto de segurança! Se soltou por completo e saltou para estrada, o carro a
120 Km/h colidiu com o UNO que parara sem gasolina, levantando cacos de vidro ao ar e o empurrando por metros até alcançar o limite da estrada. Arrebentou a mureta de proteção jogando os dois automóveis contra as pedras, em seguida caindo na água.
Não havia tempo para pensar nos danos materiais que sofrera, o mundo não pararia para ele. Um novo som chamou a atenção, eram gritos que vinham da estrada mais a frente. Correu a procura de ajuda e encontrou depois de um contorno da estrada um homem, velho, baixo, policial fardado e de arma em mãos. E o seguindo uma mulher alta, de cabelos negros, tingido nas pontas de um vermelho escuro, seios fartos, belas curvas e algemada. Vestindo uma regata roxa escura junto com uma calça jeans preta. Mais atrás das duas figuras jazia o carro de polícia batido contra a montanha, o veiculo descontrolado que passara correndo parecia ter batido na traseira e o atirado contra a pedra.
A moça praticamente ignorou a presença de William, estava concentrada em suas algemas enquanto falava - Olhe em volta seu velho! eu avisei, o que você acha que era aquilo? - ela perguntava a ele.
- Vocês crianças, veem filmes demais. A senhorita fez uso de alguma droga? - o senhor falou calmamente.
Ela tomou a pergunta como ofensa - Não pode me prender! - ela gritava no ouvido do policial - Aquele homem já estava morto!!! eu apenas ...
- Matou um homem morto? isso não faz muito sentido não acha menina - o velho a cortou, seu tom de voz era como o de alguém que repreende o filho - Não há desculpas para cometer um homicídio. Você vai ser presa como já repeti centenas de vezes e julgada. No tribunal poderá apresentar sua história e tentar justificar seus atos. - Ele notou a angustia da mulher em andar a pé na estrada "desprotegida" - Só estamos aqui por causa daquele carro, vou verificar se o motorista esta bem, deve ser um bêbado! vou prende-lo também.
A moça se calou, estava cansada de discutir com o cabeça dura. William achou uma boa oportunidade para se aproximar e ao faze-lo, notou que os dois tinham cortes superficiais nos rostos e braços, provavelmente devido a batida - Senhor ... Senh.. - ele tentou falar recuperando o fôlego - aquele homem já era - O velho ajustou os óculos no rosto para enxergar melhor com quem falava - o carro dele bateu no meu e os dois despencaram no penhasco - encerrou aturdido.
- Vou chamar uma ambulância - o policial falou, a moça que o acompanhava fez uma cara de quem não acreditava no que estava vendo, aquele homem parecia viver em outro mundo, não percebia o que estava acontecendo a sua volta. Talvez por que fosse cético e tivesse a audição prejudicada, por isso não ouvia os gritos e explosões distantes que os cercavam.
- Só pode estar de brincadeira comigo - ela balançou o cabelo negro para tirar um cacho da frente do rosto - Me escute ok? precisamos ir buscar minha irmã, eu a deixei no hotel, depois que a buscarmos o senhor pode até me prender se quiser - o velho fez como se não a ouvisse e se virou de costas, voltando ao carro para usar o rádio, chamar ajuda.
Num movimento rápido ela o golpeou com os punhos fechados juntos, o senhor já frágil devido a idade tombou como um gigante, batendo com a cabeça no asfalto. A moça lhe tomou a pistola que carregava no coldre e a prendeu na cintura, continha nove balas, usou o molho de chaves que encontrara para se libertar.
- O que esta fazendo? - perguntou William - você acabou de derrubar um policial! ele esta bem? - o nobre homem se abaixou para verificar se o velhinho ainda respirava e deu um suspiro aliviado ao notar que sim - o que esta fazendo agora? - ele perguntou enquanto a mulher voltava ao carro.
- Indo buscar minha irmã, se continuasse atrás desse idiota acabaria morta. Depois vou deixar este inferno! - William estava pasmo com a atitude da mulher e embora achasse errado o que ela fizera, tinha sido rápida e pego a arma do policial, algo que podia-lhe garantir segurança. - Espere! vou com você! - ele gritou - mas não podemos abandona-lo aqui no meio da estrada! - mesmo que quisesse sobreviver, não conseguiria abandonar o pobre velhinho desprotegido no local. - Coloque-o no banco de trás algemado! - a resposta da moça foi rápida e dura. Ele fez como ela mandara e os dois partiram.
Durante a viajem de poucos de minutos até o hotel ele refletiu se tomara a decisão certa, se não deveria ter continuado a pé até a balça para deixar a ilha. Uma decisão de segundos ... não tinha como voltar atrás, estava mais seguro com ela agora. William também tomou o tempo para descobrir com quem ele confiara sua segurança, o nome dela era Alessandra, tinha dezenove anos e havia deixado a irmã de quinze no hotel, para fazer algumas compras rápidas. Foi quando os infectados avançaram nela.
Finalmente chegaram ao destino, um hotel a beira da estrada, composto por dois andares, seu interior era feito apenas de quartos, com saídas diretas para o estacionamento, decorado por palmeiras plantadas em vasos, pois não era uma vegetação típica da região e um painel alto, composto de luzes que formam o nome Praia Bela. Alessandra pulou do carro sem nem desliga-lo, pegou a pistola já a destravando de acordo com o que vira em vários dramas policiais no cinema. Nunca manuseara uma arma antes, mas para quem a observava podia confundi-la com uma atiradora experiente, com anos de prática.
- Pegue o cassetete - ela avisou antes que William saísse do carro, um infectado então apareceu ao longe, de uma das portas arrombadas toda ensanguentada. A "viu" imediatamente e começou a andar lentamente e com dificuldade ao seu encontro. A moça mirou no peito do "morto" e disparou, o tiro foi certeiro.
O infectado caiu, ouviu-se então um grito de dor, Alessandra havia se machucado com o tranco da arma, devido a estar desacostumada e também por não ser tão fácil como era via no filme. William chegou nela e a viu segurando seu braço direito com a outra mão - Você esta bem? - perguntou.
- Si ... Sim pegue a arma, a deixei cair - sua fala era um pouco tremula - vamos e... encontrar minha irmã.
- Tem certeza que esta bem? - William não confiava nas palavras da moça, mas quando ela o fuzilou com o olhar. Virou-se para o hotel e seguiu em frente sem perguntar mais nada.
O casal subiu uma escada lateral de metal que levava ao segundo andar de quartos. Seguiram reto pelo corredor de madeira e estacaram quando viram a porta do quarto da Alessandra entreaberto. Andaram mais devagar e com o máximo de cuidado, observarão no chão um rastro de sangue e sujeira que entrava no comodo.
Os dois se olharam e ao sinal da moça, William tocou a porta de madeira de numero 13 e suavemente a empurrou. O quarto foi revelado a eles, uma cama de casal, uma outra porta para o banheiro, uma TV um pouco velha em cima de uma comoda de madeira e ao lado as malas de viajem das irmãs. Em cima da cama bagunçada jazia uma menina de joelhos e de costas para a porta principal, escondendo seu rosto. Um olhar mais atento pode reparar em uma poça de sangue e um pé no chão, escondidos atrás da cama. Também se pode observar que as mãos brancas e delicadas da menina estavam manchadas do liquido rubro. Alessandra segurou o cassetete, deu um passo a frente e com uma voz forte chamou. - Julia?
A menina virou um pouco a cabeça, mantendo o rosto ainda oculto pelas sombras do quarto...
Continua ...